A psicanálise como ferramenta social e seus dispositivos públicos no Brasil
DOI:
https://doi.org/10.59099/prpub.2025.139Palavras-chave:
Clínicas Públicas em Psicanálise, Coletivos de Psicanálise, Psicanálise, Saúde Mental, neoliberalismoResumo
O presente artigo analisa os dispositivos públicos da psicanálise no Brasil contemporâneo com base em suas iniciativas práticas, principalmente, no Estado de São Paulo, resgatando suas origens históricas nas clínicas sociais europeias do período entre guerras e destacando sua reatualização no contexto brasileiro marcado pela precarização da vida e pelo avanço da racionalidade neoliberal. A pesquisa tem caráter exploratório e descritivo, fundamentando-se em uma visão narrativa de literatura, apoiada em referenciais da psicanálise articulados à crítica social. Os resultados evidenciam que estes coletivos públicos, por meio de reinvenções teórico-técnicas como a inserção territorial, a gratuidade, a elasticidade do setting e a construção coletiva da transferência, ampliaram o acesso à psicanálise, sustentaram a escuta singular e confrontaram a lógica neoliberal de individualização e mercantilização do sofrimento. Assim, conclui-se que esses dispositivos revitalizam a teoria e a prática psicanalítica, recolocando-a como ferramenta ética e política frente às formas contemporâneas de sofrimento.
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